quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

[TEXTO] legítimo

Postado por Bianca Barion às 00:17 0 comentários

soube que ontem nevou e o violeta de minha mão não pulsou em seu contato
isso porque eu não estava lá
ontem 100 pessoas morreram e por que a neve ainda permanece na minha cabeça?
as pessoas estão vivendo com a televisão ligada o tempo todo
os sons são banalizados
só espere eles esquecerem o que está acontecendo
quando um jovem de 24 anos foi infectado
pensava no porquê, ele também
a luz acaba, o corpo fica preso na escuridão do meio dia
a morte é legítima
e o que há no meio disso?
enquanto vivo, tristeza não se comprova








segunda-feira, 18 de novembro de 2019

[TEXTO] personagem de mim mesma

Postado por Bianca Barion às 22:33 0 comentários
se eu dissesse que, mais jovem, sinto falta de quando parecia que eu tinha o poder da narrativa dos acontecimentos
mesmo triste, eu só tinha 14 anos e isso me reconfortava
é agora ou nunca
enquanto eu deveria estar lendo a personagem de ficção
a única personagem que conheço sou eu e a ficção da minha vida se transformou em uma realidade pesada
a existência está tão papável, materializou-se
e eu só queria estar presa dentro dos meus livros infanto-juvenis, sem julgamento por não ser mais adolescente, vivendo dentro da cena do primeiro beijo para sempre
onde não se descobre que o mundo é feio e, às vezes, você mesmo é
as idealizações se congelam e a pessoa que você nunca teve para si se conserva na imagem perfeita
sem descobrir que são só seres humanos e não divindades
a imaginação, em suas linhas presas à tela do computador, sem jamais deixar que elas entrem em contato com a realidade de carne que sangra
que te quebra e te faz ver que nada é perfeito
a vida real é essa e você não possui nenhum controle sobre os personagens e os figurantes
e então, pra que tudo isso, se só a escrita salva
ali sou personagem de mim mesma.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

[TEXTO] WUHAN

Postado por Bianca Barion às 09:00 0 comentários

Como num sonho, as ruas abafadas ganham espaço em minha mente
Suas noites que se banham de luz e que são refletidas nos olhos de quem passa
Os grandes letreiros de cores vibrantes
O som dos carros,  o enorme caminho que levava daqui até a outra passagem
O farol verde que se abre, as pessoas que com pressa caminham, milhares de corpos em direção ao seu destino
A fumaça flavorizante que domina as esquinas
Tudo ainda estava fixado em mim

Eu implorava à vida que me levasse de volta a você
Aos braços de suas avenidas, às lojas que já contavam histórias
Aos cafés, ao sorvete com gosto de iogurte e melancia
Ao senhor que tagarelava do outro lado da rua enquanto as motocicletas passavam por mim em sua velocidade infinita
Nunca era entendido o que se falava por ali
Mas tudo era sentido na sua vasta beleza

Desejava viver podendo sentir seus sabores, seu ar, olhar suas curvas e caminhar por suas vias
Queria viver sabendo onde eu pertenço e onde meu corpo encontra espaço para se fundir com suas estruturas e assim me encontrar inteira
Me abraçando de novo, me receba com saudades e não permita que eu me vá novamente

domingo, 6 de maio de 2018

[TEXTO] BONECA DE PAPEL

Postado por Bianca Barion às 23:17 0 comentários




Ficava sozinha e compreendia que as pessoas não podiam circundá-la em todos os momentos, até preferia
As paredes respiravam e transpiravam junto, escutando o quanto seu silêncio podia passar por entre as suas finas camadas
Tudo aquilo era ensurdecedor
Então deitar-se na cama ou pular em direção ao chão frio da madrugada
Não sabia qual era o melhor
Alguém seria capaz de dizer o que era? perguntava a si
Quando olhava em sua volta, não encontrava ninguém
Mas repetindo que entendia que não havia como alguém estar sempre lá
Também perguntava se era normal ninguém nunca estar
Enquanto todo aquele silêncio a curvava por inteira de tão alto que era, como ninguém escutava?
Talvez tivesse que passar por todas as portas deixando seu rastro de lágrima
Poderia ser que alguém olhasse e viesse perguntar algo
Talvez não
E ela sabia que ninguém ouviria seu pedido de socorro mudo entre as frestas
Percebeu que estava completamente rasgada
Pensava que talvez fosse frágil como algo feito de papel
Por isso todos tinham medo de tocá-la
Porém ao acordar na manhã seguinte sabendo que recolher-se sozinha era o melhor
Sem ninguém ter dito isso
Ou ter lhe dado a mão
Tinha certeza que era forte como algo feito de aço
Sabendo que às vezes precisava ser feita de papel
Aceitava que a rigidez não lhe pertencia




terça-feira, 1 de maio de 2018

[TEXTO] SENSORIAL

Postado por Bianca Barion às 22:44 0 comentários


Todas as vezes que ela te via
Seus olhos te ressiginificavam
Onde ao reconhecer o toque de seus lábios úmidos
Lamentava por fazê-lo
Mas assim continuava, pela segunda e quarta vez
A você era puramente entregar-se ao desejo
A ela era doar-se por inteira
Era reconstruir uma parte a qual você despedaçara
O vazio que você havia instalado em um espaço dela antes cheio
Completo por uma ternura quente que agora só aquecida pelo ar que é exalado de você
De suas narinas, da sua boca gosto de hortelã devidamente preparada para a vinda da boca dela
A boca que cambaleia, que teme, mas que sempre vinha
A você era puramente conquista
A ela era o sentimento de pertencer
Você costumava ser o ritmo de seus passos, de seu fôlego
Ela teve de aprender a fazer tudo sozinha de novo
Enquanto você fazia tudo quantas vezes fosse necessário
Sem ter como se livrar
Entregou-se e você disse a ela para partir
Não estava preparado
Ela então parou de dar significado ao que não tinha
Vocês
A ela foi um alívio
A você foi a maior perda









sábado, 27 de janeiro de 2018

[TEXTO] PORQUE ESSA É A MINHA PRIMEIRA VIDA

Postado por Bianca Barion às 01:14 0 comentários
                         
                       

E se meu maior sonho for o amor

Aqui eu permaneço, sozinha, agarrada ao vazio só imaginando segundos antes de adormecer
Cenários hipotéticos, fantásticos
Sentir-se apaixonada
Eu nem lembro mais como é
Mas sei que o coração se enche numa ternura
E então eu me imagino dividindo a cama com o grande amor da minha vida
O qual não sei onde está
O que deve estar fazendo agora na madrugada de uma sexta-feira úmida e quente
Mas eu imagino uma pessoa deitada, pijama cinza, porque gosto dessa cor, cabelos pretos
Porque é o tom que cai bem ao seu rosto
Ela dorme confortavelmente e o cheiro de sabonete exala dela
Eu levanto para pegar água com a felicidade de saber que, ao voltar, um abraço me espera na cama quente
Então eu sento na beirada da cama e o observo
Amo você, eu digo baixo
Obrigada por me fazer a mulher mais feliz do mundo
Isso eu penso, porque ela já sabe
Faço planos para amanhã de manhã
Talvez um passeio de carro com ela até o mercado
Qualquer coisa parece divertida quando seu sorriso aparecer
Aquele que faz seus olhos fecharem completamente quando ela o exibe
Mas me vejo de novo agarrada a essa esperança que, sim, você está lá fora
Nessa sexta-feira
Procurando por mim também
Então, não demore
Mas também não corra demais
Eu durmo tarde e posso te esperar mais um pouco
Assim como você me espera, eu te espero também
Mesmo se o pijama não for cinza, caso o cabelo seja claro e o sorriso discreto
Eu só preciso imaginá-la de alguma forma

Eu só preciso acreditar no meu maior sonho


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

[TEXTO] O DESPERTAR DOS TEUS OLHOS

Postado por Bianca Barion às 22:46 1 comentários

E se fosse necessário fazer o retrato do amor ele seria moldado com a forma de alguém deitado em uma cama, 1h45 da manhã de uma quarta-feira, onde às 6h00 é esperado que já se esteja de pé, cabelo penteado, rosto limpo e café na caneca de porcelana. Mas ainda são 1h46 e a luz amarela do abajur projeta-se na parede branca e quase que dá para ver aquele olhar vago para a parte do quarto que ainda permanece escura. Olhar cansado de quem se vê imerso em um ambiente decorado de dúvidas as quais ali, naquela madrugada, não serão resolvidas e talvez nunca sejam. É a troca de lado da cama, o ritual de amassar os travesseiros e encontrar-se repetidamente em uma teia de lençóis emaranhados. O fechar de olhos que não leva ao inalcancável dormir e sim aos olhos de cor caramelo esverdeado e à lembrança do toque da mão. Quando a luz tímida do dia surge pela fresta da janela é que se percebe que nenhuma noite de sono cura o que o coração carrega.

And if it were necessary to make a portrait of love, it would be shaped by someone lying in bed, at 1:45 am on a Wednesday, where at 6:00 am you are expected to be up, hair combed, face clean and coffee. in the porcelain mug. But it's still 1:46 and the yellow light from the lamp projects itself on the white wall and you can almost see that vacant stare at the part of the room that still remains dark. The tired look of someone who finds himself immersed in an environment decorated with doubts which, at that dawn, will not be resolved and perhaps never will be. It's the changing sides of the bed, the ritual of crumpling the pillows and finding yourself repeatedly in a web of tangled sheets. The closing of the eyes that does not lead to the unreachable sleep, but to the caramel-green eyes and the memory of the touch of the hand. When the shy light of the day appears through the crack in the window, it's when you realize that no night's sleep cures what the heart carries.
 

Inquieta Solidão Copyright © 2012 Design by Antonia Sundrani Vinte e poucos

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