Houve um tempo em que você quebrou meu coração e, como uma maldição, eu nunca ousei escrever sobre o amor enquanto ele florescia. Cabia às minhas palavras o último estágio dele, a ruptura, depois que tudo tinha sido desfeito e eu fincava a dor em textos. Houve tempos em que me apaixonei por você, o desejo da ida diária a sua casa, onde podia te alcançar facilmente atravessando a rua. Depois a distância deu-se por meio de algumas fileiras, à espera do caminho da sua silhueta passando pelos portões de um colégio. Você, alto como um castelo, personificação de um conto de fadas e inalcançável tanto quanto. E entre tudo isso, o universo que silenciosamente trabalhava, como sempre foi e sempre será. Eu voltava para você sem ao menos perceber. Quando uma taça de vinho diretamente me dava a coragem de te desejar um feliz ano novo às 1:06 da manhã e ver seu rosto numa chamada às 23:25 da noite. A correspondência do destino me trazendo à lembrança do primeiro amor. Aquele que nem pode ser nomeado de romântico, mas tem valor muito maior, a simplicidade da pureza de duas crianças. A visão de uma casa com corredores enormes e um menino de cabelos dourados que dificilmente se ouvia o som da voz. Onde nenhuma maldade podia nos alcançar, nem a dor de um coração partido. Meu coração desperta e se aquece com a ternura dos momentos que você me proporcionou e agradeço a todos que estão acontecendo. Pela primeira vez, obrigada por me permitir escrever um texto feliz e cheio de esperança, da forma que for, isso é único. Se eu tivesse o poder de voltar no tempo, iria estar no seu portão, esperando um abraço, sem que um oceano me impedisse de tal ato.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
[texto] .
Como uma verdadeira patética, eu vivo como um fantasma
Presa no topo de um castelo
Minto para mim que esses cômodos são tudo que o mundo tem a me oferecer
E que minha imaginação é a única que pode me satisfazer completamente
Eu não olho para fora
Não ouso abrir as janelas e a cortina pesada que cobre do teto até o fim dos meus olhos
Me faz, cegamente, escrever e com o som surdo das teclas eu me contento
Mentirosamente, me repito
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
[TEXTO] nada faz sentido sem você
Venha.
Eu queria te contar que os outros falavam.
Lançavam palavras.
Você era o único que conversava.
O som da sua voz era como os acordes da canção que eu nunca escutei.
Você tinha os olhos que questionavam, lábios que respondiam e a alma que confundia.
Eu, posta em frente ao meu devaneio excessivo, nunca teria imaginação suficiente para te criar.
Exista.
Porque minhas percepções andam mudando e eu quero achar um significado para tudo isso.
Mesmo que seja às 3 horas da manhã.
Você tem de vir, existir, falar e me fazer crer que nada é em vão.
Nem mesmo o maior sofrimento que minha carne já experimentou.
Quero que você explique onde esteve.
E porque eu te projetei nas minhas noites de sono alucinógenas.
Tudo isso deve ter um motivo.
Eu preciso acreditar.
Ou morrer imaginando como seria.
terça-feira, 6 de outubro de 2020
[TEXTO] ONTEM
Ontem eu me senti adolescente. E mesmo sem ninguém me entregar esse título, nas profundezas de minha solidão, o eco me fez perceber. De alguma maneira eu era adolescente de novo. Meu corpo parecia se curvar de vergonha. Alguma coisa em mim não se encaixava, eu não pertencia àquele momento mais. Eu não podia pagar a conta do passado duas vezes, esse débito não cabia. O que eu havia aprendido havia sido jogado fora em alguma parte da minha formação? Pensara. Mas foi aí que o velho eu, que carrego desde criança, me contou que não era sobre regredir e sim encontra-se na mesma situação de anos anteriores e com a dureza do agora, agir de uma maneira diferente. Isso era crescer, sem nomeações de ciclos.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
[TEXTO] legítimo
isso porque eu não estava lá
ontem 100 pessoas morreram e por que a neve ainda permanece na minha cabeça?
as pessoas estão vivendo com a televisão ligada o tempo todo
quando um jovem de 24 anos foi infectado
pensava no porquê, ele também
a luz acaba, o corpo fica preso na escuridão do meio dia
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
[TEXTO] personagem de mim mesma
mesmo triste, eu só tinha 14 anos e isso me reconfortava
é agora ou nunca
enquanto eu deveria estar lendo a personagem de ficção
a única personagem que conheço sou eu e a ficção da minha vida se transformou em uma realidade pesada
a existência está tão papável, materializou-se
e eu só queria estar presa dentro dos meus livros infanto-juvenis, sem julgamento por não ser mais adolescente, vivendo dentro da cena do primeiro beijo para sempre
onde não se descobre que o mundo é feio e, às vezes, você mesmo é
as idealizações se congelam e a pessoa que você nunca teve para si se conserva na imagem perfeita
sem descobrir que são só seres humanos e não divindades
a imaginação, em suas linhas presas à tela do computador, sem jamais deixar que elas entrem em contato com a realidade de carne que sangra
que te quebra e te faz ver que nada é perfeito
a vida real é essa e você não possui nenhum controle sobre os personagens e os figurantes
e então, pra que tudo isso, se só a escrita salva
ali sou personagem de mim mesma.
quarta-feira, 22 de agosto de 2018
[TEXTO] WUHAN
Suas noites que se banham de luz e que são refletidas nos olhos de quem passa
Os grandes letreiros de cores vibrantes
O som dos carros, o enorme caminho que levava daqui até a outra passagem
O farol verde que se abre, as pessoas que com pressa caminham, milhares de corpos em direção ao seu destino
A fumaça flavorizante que domina as esquinas
Tudo ainda estava fixado em mim
Eu implorava à vida que me levasse de volta a você
Aos braços de suas avenidas, às lojas que já contavam histórias
Aos cafés, ao sorvete com gosto de iogurte e melancia
Ao senhor que tagarelava do outro lado da rua enquanto as motocicletas passavam por mim em sua velocidade infinita
Nunca era entendido o que se falava por ali
Mas tudo era sentido na sua vasta beleza
Desejava viver podendo sentir seus sabores, seu ar, olhar suas curvas e caminhar por suas vias
Queria viver sabendo onde eu pertenço e onde meu corpo encontra espaço para se fundir com suas estruturas e assim me encontrar inteira
Me abraçando de novo, me receba com saudades e não permita que eu me vá novamente



